“É sempre possível acordar alguém que esteja dormindo, mas barulho algum vai acordar alguém que finja dormir.”
Jonathan Safran-Foer
Desde 2005, quando participei da fundação do primeiro grupo gaúcho da Sociedade VegetarianaBrasileira, já conversei com centenas de pessoas no nosso estande, por internet e em eventos. Nessas conversas foi possível destacar uma série de mitos sobre vegetarianismo que ainda estão entranhados no pensamento de muita gente. Alguns dizem respeito à ingestão de proteína (“mas de onde você tira sua proteína?”), à suposta sensibilidade das plantas (“mas o tomate também sente dor”), à criação de crianças vegetarianas (“respeito sua opção, mas não queira forçar os seus filhos!”), e a muitas outras opiniões cambaleantes transformadas em fatos incontestáveis. A maioria dessas ideias obtusas vai aos poucos dando lugar à informação bem fundamentada e ao bom senso. Mas um dos mitos permanece, sempre forte, o da carne branca.
Como todo mito, este nasce da desinformação, que gera a presunção de uma verdade que, por fim, leva a uma total falta de questionamento. Mas vamos a ele. O mito da carne branca é um pouco mais difuso e menos objetivo que os outros mitos, mas pode ser simplificado assim: “o problema mesmo é a carne vermelha, portanto, se eu consumir apenas carne branca já estarei fazendo minha parte”. Esse é apenas um dos lados, há outros ainda, como “carne branca é mais saudável” ou “a galinha foi feita pra isso mesmo”.
Ao contrário de outros argumentos de onívoros, muitas vezes usados somente com intenção de provocar e confundir, por vezes numa atitude defensiva tão forte que mereceria a opinião de um daqueles psicanalistas de programas televisivos, o mito da carne branca é preocupante pois parte, invariavelmente, de pessoas bem-intencionadas. E sua avó já lhe ensinava: “de boas intenções...”

Se tivesse que recomendar apenas um tipo de animal para você comer (o que eu jamais faria), o último deles seria o frango. O frango é sem dúvida o que mais sofre durante todo o processo de criação até o abate. Para começar, não há nada de natural na criação desses animais, que já nascem condenados: desde filhotes têm seus bicos cortados com uma lâmina quente; como são selecionados aqueles que dão mais carne, têm estrutura óssea incompatível com seu peso, o que gera deformidades internas e externas; jamais chegam a ver a luz do dia, ficando confinados em espaços equivalentes à meia página de um jornal, e suas patas nunca sentem o chão, apenas grades. Os que não acabam por morrer asfixiados durante o transporte, quando são encaixotados aos milhares em caminhões, são escaldados vivos e sangrados até a morte. E vou me abster de detalhar a “vida” das galinhas poedeiras. Galinhas e frangos são os animais de criação abatidos com o mais curto período de vida.
De onde surgiu o mito da carne branca ainda não sei. Mas, como diz o Dr. Marcio Bontempo, “A carne branca é uma grande ilusão. A carne branca é bicho, é animal também”. É perfeitamente compreensível que a eliminação da carne branca da sua dieta seja apenas uma etapa de um (desnecessariamente) lento processo que objetiva o vegetarianismo. Mas, se você cortou a carne branca pensando nos animais, pense de novo.
Diego Lopes